Oi galera. Quero agradecer a quem já visitou esse blog. Não posto mais nele, pois não há tempo. Esse será um dos meus raros posts daqui pra frente. A foto aí em cima é uma réplica que representa o avião 14 BIS no mundo consumista. Ela foi para o IV Desafio Nacional Acadêmico, que ocorreu esse mês em Brasília-DF. Falando nisso, quero mandar um beijo pra Babi, pra Anne e pro Joã...quer dizer...Pro João eu mando um abraço. Por falar em beijos e abraços. Dia dos Namorados está chegando. Eu queria falar sobre isso, mas é algo muito manjado. Por isso vou falar do romance na Índia...Vocês podem estar pensando que é aquele romance de 1001 noites....
Que romance, que nada. O último dia dos namorados da Índia, 14 de fevereiro, teve muita ação. Um grupo de conservadores hindus saiu às ruas do país à caça de casais que estivessem de abraços ou cheirinhos no cangote. Queriam obrigar os pombinhos a casar na hora. A polícia entrou em ação, e o balanço do dia contou várias prisões e uma leva de cartões comemorativos fofinhos queimados pelos militantes. Ao que se sabe, o grupo não conseguiu levar ninguém ao padre (ou melhor, sacerdote). Mas se vingou cortando os cabelos de todos os apaixonados que viu pela frente.
Ainda que a polícia ficasse quieta, esse pessoal seria alvo de outros. Toda demonstração pública de afeto é tabu na Índia. Aliás, quase toda: homens andam de mãos dadas numa boa (e isso é um costume entre amigos, nada mais). Entre homens e mulheres, nem os casados ficam de chamego na rua. O engraçado é que esse recato todo seria impensável há algum tempo. Conhece o Kama Sutra? Foi a Índia que fez. O sexo tântrico? Foi a Índia que fez. A Bruna Surfistinha? Não...Essa não...Essa já...Deixa pra lá. Vamos dar uma paradinha lá no passado para entender como é que a Índia ficou tão pudica.
Lá entre os séculos IV e VII a.C, o sexo não era assim tão vergonhoso. Reis o usavam em rituais públicos, como o Ashvamedha. Funcionava desse jeito: quando um rei queria ter um filho viril, botava um cavalo para correr nas vizinhanças. Se o cavalo voltasse depois de passar por terrenos inimigos, é porque era um legítimo garanhão. O bicho havia passado no teste, mas acabava sacrificado. Entrava em cena a rainha: ela deveria manter relações sexuais com o cavalo morto para recolher a “semente” da virilidade, como o pessoal pensava que aconteceria. Misturada à semente do rei, a herança do cavalo daria à rainha um príncipe de grande destino à frente.
Mas os ensinamentos de Buda começaram a se espalhar nessa época, e ele dizia que tudo o que liga uma pessoa ao corpo gera sofrimento. Até sexo – que virou algo constrangedor. A mentalidade só mudou 8 séculos depois. Era o chamado Período Dourado da Índia, graças a fertilidade de inovações em campos como astronomia e matemática (a criação do xadrez e do número zero é atribuída a esses anos).
Criativos, os indianos mudaram sua visão sobre relacionamentos. “Eles se perguntaram por que o sexo deveria ser uma mera ferramenta de procriação”, diz Rita Banerji, antropóloga e autora do livro Sex and Power. “Defendiam que as pessoas tivessem prazer”. Surgiu o Kama Sutra, uma espécie de guia para atrair o parceiro e aguçar os sentidos durante o sexo. Dizia, por exemplo, que os homens deveriam criar um clima com música antes de partir para o ataque. Mais tarde, viria o sexo tântrico. Era uma filosofia criada por estudiosos que prezava em segurar o máximo possível o nível de prazer até obter o que eles chamam de moksha (um tipo de super hiper mega ápice de prazer). Eles apostavam que a resposta estava na união do corpo e alma. E que o sexo poderia ser uma ferramenta, se seguisse alguns princípios. Homens eram instruídos a beber os fluídos sexuais ou menstruais de mulheres, por exemplo. Sacerdotes do tantra viraram conselheiros de reis e influenciaram todas as religiões da Índia. Mas os ritos libidinosos eram só pra quem passava por um longo treinamento.
Ou seja, não dá pra dizer que a Índia era um bacanal. Mas era isso o que os estrangeiros que chegavam por lá pensavam. Tanto muçulmanos, que dominaram a região da Índia entre os séculos XVI e XVIII, quanto os britânicos, que assumiram o comando depois, ficaram horrorizados com as vestes dos indianos. Ou a falta delas.
Antes de os muçulmanos tomarem o poder, indianos e indianas andavam por aí sem camisa. Chocados, os novos lideres usaram contra a nudez o mais eficiente dos métodos: cobrar impostos. “As indianas começaram a se cobrir e usar véu por causa da vigilância”, diz Rita. Os britânicos também desaprovavam a sensualidade das indianas, e tiveram uma ajudinha de Ghandi para moralizar o país – ele afirmava que o sexo distorcia o espírito.
É por isso que hoje pega mal fazer qualquer menção a romance ou sexo. Atração e desejo são conceitos impronunciáveis em uma sociedade em que nem mesmo os casamentos são por amor. Na Índia, a regra é casar-se com alguém escolhido pelos pais. Na história da ascensão e queda do sexo, esse é um capítulo ainda a ser resolvido pela Índia.
Abraços.
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